A localidade de Chaves, onde situa-se a Cachoeira véu de noiva no município de Santa Leopoldina neste estado do Espirito Santo, é por nós conhecida desde o dia 03 de janeiro de 1987. Ou seja, praticamente 40 anos! Dessa forma, podemos comentar algo sobre espécies já registradas no lugar e não mais encontradas.
Chaves não é um nome desconhecido na literatura ornitológica! Em meados do Século passado, o antigo Museu Paulista, atual MZUSP, Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo fez algumas expedições às matas do lugar, com os coletores de peles de aves chefiados por Emilio Dente, realizando coletas no lugar. Muitas dessas aves, então coletadas, são citadas no Catalogo das aves do Brasil, de autoria do Dr. Oliverio Mario Pinto, editado em 1944. Esse livro raro, é uma lista dos exemplares existentes no então Departamento de Zoologia do museu, com informações onde foram coletadas e as datas das coletas, bem como dos coletores.
O Local situa-se a cerca de 500 metros de altitude e podemos dizer que é o primeiro degrau da subida da serra rumo ao planalto. É formado pela mata atlântica em diferentes estágios de sucessão vegetal, existindo desde campos sujos desmatados, capoeiras, até locais de mata atlântica original parcialmente alteradas, principalmente no topo dos morros. E também, plantações de bananas nas encostas desmatadas.
Nesses 40 anos que conhecemos a região, notamos que houve melhoras na fisionomia vegetal do lugar. Morros, onde antigamente existiam vegetação rasteira com predomínio de samambaias, hoje ostentam capoeiras e capoeirões com algumas árvores chegando perto de 15-20 metros de altura! Assim, não houve aumento de desmatamento no lugar!
Mas mesmo assim, algumas espécies florestais, antes registradas no lugar, não mais são observadas e nem ouvidas!
Isso nos faz pensar, que nossos conhecimentos sobre os hábitos e necessidades de nossas aves ainda são desconhecidas e podemos estar perdendo espécies por ações que poderiam ser evitadas e ou providenciadas.
ANOTAÇÕES SOBRE ALGUMAS ESPÉCIES:
1) Gavião Pombo grande - Pseudastur polionotus.
Esse Gavião era sempre visto planando sobre as encostas da mata,
ás vezes, dois indivíduos e muitas vezes apenas um. Era frequentemente registrado entre 1993 e 2016. O ultimo registro, publicado no Wiki Aves, data de 26.6.2017. Desde então, nunca mais os vimos no lugar. Sobre os grandes gaviões, já lemos que muitas vezes, indivíduos são registrados durante muito tempo em certos locais. Podem dar a impressão de tratar-se de residentes permanentes e com população estável no lugar. Porém, com o passar dos anos e não aparecendo indivíduos novos, envelhecem e extinguem-se no local. Espécies mais raras e ou exigentes são mais sensíveis a esse tipo de extinção.
2) Gavião pato - Spizaetus melanoleucus.
Essa águia mascarada, na definição de William Menk, era por nós registrada nos mesmos locais do Gavião Pombo grande. Entre 2005 e 2010, vimo-la frequentemente. Inclusive realizando sua famosa caçada, quando aproveitando as térmicas, subia a grande altura, e, de lá, deixava-se cair nas copas próximas tentando capturar aves que ali se encontravam. O mesmo citado para o Pseudastur pode ser aplicado a esse Gavião, também um grande predador e com populações rarefeitas em uma grande área.
3) Tovaca cantadora - Chamaeza meruloides.
Ouvimos essa Tovaca, numa encosta por onde descia um córrego. em 1993, por três vezes ouvíamos a ave nesse local. Não mais registrada. A Tovaca, no Espirito Santo, é ave das montanhas, de maiores altitudes. Essa quota em que era registrada fica a cerca de 400 m. de altitude. Talvez, com o aumento do aquecimento, a ave tenha se deslocado para locais mais altos. É o que supomos. Nossa suposição, tem amparo no comportamento de outra ave florestal. O Guaxe, Cacicus haemorrhous. Como sabemos, o Guaxe, ao contrario da Tovaca, é ave das matas das baixadas quentes, fato esse citado por SICK, em sua monumental obra sobre as aves brasileiras. Entre 1987 a 1998, depois de várias excursões a Chaves, ainda não havíamos registrado o Guaxe no local. Porém, a partir de 1998-99, o Guaxe colonizou totalmente as matas da região, sendo hoje uma das aves mais abundantes no lugar.
4) Cigarra bambu - Haplospiza unicolor.
Durante o período de 1993 a 2009, registramos essa ave muitas vezes na região. Não temos mais noticias sobre ela no local.
5) Anambezinho - Iodopleura pipra.
Apenas uma vez registramos esse pequena ave, próxima à cachoeira. Não fotografávamos na época e até hoje, não constam registros no Wiki Aves para o município.
6) Macuru de barriga castanha - Notharchus swainsoni.
Vimo-lo na beira da mata próximo aos bananais em 09.7.2006, único registro visual.
Alguns registros, como o Macuru, a Tovaca e o Anambezinho, podem ser considerados como raros ou ocasionais para o lugar. Quanto aos gaviões, são espécies com grande poder de voo, e podem ter se afastado do lugar para colonizar outras áreas mais propicias. Já a cigarra bambu, não encontramos explicação. Talvez a frutificação das taquaras seja a causa.
Agradecemos aos nossos visitantes!




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